Da Necessidade de Enfatizar o Exercício da Psicologia Como Uma Prática Antifascista

    A ideologia e as práticas fascistas em linhas mais de que gerais estão para a restrição das liberdades coletivas e individuais, anulando as pluralidades e os diferentes modos de estar e existir, num quase culto ao que é hegemônico, e por que não restritivo.

    Para além desta tentativa de delineamento eufêmica do fascismo, é importante frisar que este sistema tem caráter antidemocrático, caracterizando-se por seu autoritarismo. Suas práticas cultuam a violência, sendo este, inclusive, um meio do qual se utiliza na resolução de seus problemas – no esforço de manter a suposta “ordem”. Sendo, pois, o terror e o medo, instrumentos dos quais os fascismos se alimentam. Há outras características, no entanto, não me aterei a elas, a quem desejar deixo ao fim desta reflexão um breve texto publicado na Revista Cult de Vladimir Safatle, que trata do fascismo e suas características (1).

​    Neste tipo de sistema não há espaço para a diferença. O fascismo ataca as liberdades e as singularidades. À psicologia, mesmo que nem sempre sua história tenha se construído a este modo, cabe o dar lugar às liberdades de ser e aos diferentes modos de existir. O código de ética de nossa categoria, vigente desde o ano de 2005, orienta, expressa e proíbe em seu Art. 2º, quaisquer práticas ou conivências com “atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade ou opressão”, bem como também veda o “utilizar ou favorecer o uso de conhecimento e a utilização de práticas psicológicas como instrumentos de castigo, tortura ou qualquer forma de violência” (p.9) (2).

​    Sinalizando, assim, já no início de seu texto que a concepção ali trazida se pauta pelo respeito ao sujeito humano e seus direitos fundamentais. Nossa profissão está fundamentada no compromisso com a promoção da cidadania, devendo como orienta o item II de seus princípios fundamentais, trabalhar visando “promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão” (p.7) (2). A “Desigualdade mata, cerceamento de liberdades enlouquece, privação de direitos violenta e fragiliza” (3). Então, não matemos, nem tampouco nos deixemos morrer. Acredita-se, aqui, em uma psicologia que produz diferença e igualmente vida. Logo, antifascista.

    Em tempos difíceis, ademais, é importante também lembrar,

“O Poder requer corpos tristes. O Poder necessita de tristeza porque consegue dominá-la. A Alegria, portanto, é resistência porque ela não se rende. A Alegria como potência de vida nos leva a lugares onde a Tristeza nunca levaria” (Gilles Deleuze).


Que a psicologia possa ser não menos que um dos instrumentos em auxílio da gestão da potência de vida e das alegrias, jamais o único, mas nunca em oposição a estas.

    A psicologia que o Maitri, Instituto de Psicologia, acredita e busca produzir em cada e em todas as suas práticas é uma psicologia feminista, antirracista, não-hegemônica – apesar de toda hegemonia que reconhecemos e de que fazemos parte. Ainda assim, é nosso compromisso ético, não só como profissionais psi, tencionar a partir do exercício de nossa profissão e dos modos outros como soubermos as opressões de quaisquer naturezas, seja de raça, classe, gênero, sexualidade…

ef65de686488282db4baa4e446595ec3
Nina Simone

Referências:

1.        Safatle V. O que é fascismo? [Internet]. Revista Cult. 2018 [cited 2020 Jun 5]. Available from: https://revistacult.uol.com.br/home/o-que-e-fascismo/

2.        Código de Ética Profissional do Psicólogo. Brasília; 2005.

3.        Paulon SM. Neoliberalismos, fascismo e saúde mental: querem nos enlouquecer? [Internet]. Revista Cult. 2019 [cited 2020 Jun 5]. Available from: https://revistacult.uol.com.br/home/saude-mental-neoliberalismo-fascismo/

Escrito por

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Psicóloga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Membro do Laboratório de Estudos em Tanatologia e Humanização das Práticas de Saúde (LETHS-UFRN), Formação em Psicologia Transpessoal pela Associação Norte Rio-Grandense de Psicologia Transpessoal (ANPPT).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s