Bate-Papo Maitri Convida: Iasmin Sharmayne (CRP 17/3650)

    No dia 8 de Março é celebrado anualmente o Dia Internacional da Mulher. O Instituto Maitri acredita no potencial da psicologia, de uma forma geral, na construção de um mundo melhor, ancorado na defesa de valores como igualdade, mesmo na diferença, e justiça – de modo que a este posicionamento cabe também o olhar atento e cuidadoso a experiência de ser mulher em um contexto preeminentemente/hegemonicamente patriarcal.

    Assim, em consideração a este dia e a luta que este representa, convidamos a psicóloga Iasmin Sharmayne – CRP 17/3650 – (Psicóloga, antimanicomial e feminista. Especialista em Atenção Básica pela Escola Multicampi de Ciências Médicas do Rio Grande do Norte EMCM\UFRN e mestranda do Programa de Pós – Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte PPGPSI\UFRN).

M: Nos últimos anos têm se cada vez mais se falado, pesquisado e discutido as questões relacionadas ao gênero, feminismos, saúde mental e subjetividade. Qual a importância da psicologia levar em consideração o recorte de gênero em seus processos de cuidado? Há especificidades significativas?

I: Com certeza há especificidades significativas relacionadas aos processos do cuidado quando pensamos as questões de gênero no campo da saúde mental. Primeiro, porque acredito que todo cuidado deve ser visto, pensado e construído com um compromisso ético e político que perceba a singularidade das pessoas. Segundo, que isso só é possível se considerarmos a produção de subjetividade contemporânea em jogo, que incide, o tempo todo, sobre os nossos modos de ser e de viver. Em consequência, há uma regulamentação biopolítica a favor de formas de vidas dentro dos parâmetros de um ideal de normalidade e quem subjetiva anormalidades deve ser regulado ou exterminado. Essa ideia foucaultiana, nos ajuda a perceber, por exemplo, a produção do sofrimento psíquico dos anormais e quando relacionamos isso as questões de gênero, podemos buscar entender as características que produzem adoecimento psíquico tanto em mulheres como em pessoas LGBT+. Desse modo, é imprescindível que nós psicólogas e psicólogos, vivendo em um país que mais mata mulheres e LBGT+ consideremos as assimetrias de gênero para pensar em estratégias de cuidado a essas populações. Caso não façamos isso, existem um grande risco de estarmos psicologizando as pessoas. Por isso, nossa clinica deve ser antes de tudo, política.  

M: A psicologia tradicional foi pensada, escrita e exercida principalmente por homens. Como profissional e pesquisadora voltada atualmente para as questões de gênero e saúde mental, que influências estes aspectos têm na experiência de cuidado do “ser mulher”? Como você observa isso em sua prática? 

I: O elitismo e o imperialismo masculino no campo epistemológico da psicologia podem ser muito perigosos. Tenho observado isso tanto na minha prática na justiça, no tempo em que fui estagiária, quanto na saúde pública, nos meus dois anos de residência multiprofissional. Isso porque, existem muitos profissionais, ainda, que têm uma visão extremamente reducionista do fazer clínica e dos acometimentos do sofrimento humano, fundamentados em bases epistêmicas, muitas, eurocêntricas sustentadas pela psicologia clássica e hegemônica que defendem uma clínica stricto sensu. Desse modo, quando se deparam com questões associadas a saúde mental de mulheres, acabam naturalizando características relacionadas ao sofrimento psíquico no corpo feminino, como os processos da maternidade, a sobrecarga do trabalho doméstico e a restrição a “vida do lar”, as questões raciais e de classe (quando falamos de mulheres negras, pobres) e etc. Portanto, ao desconsiderar  fatores sociais e subjetivos do adoecimento ligados ao corpo da mulher, muitas vezes, o reduzindo a sua fisiologia\biologia, outros profissionais de saúde e os próprios psicólogos corroboram para sua psiquiatrização, patologização, psicologização e consequente, medicalização.

M: Qual a importância de que essa lógica se altere?

I: A importância que isso se altere é justamente para nós, enquanto psicólogos e psicólogas, não corroborarmos com essa lógica opressora e medicalizante. E que não compreendamos cuidado disfarçado de controle. Pois, em muitos casos, acreditamos que estamos cuidando, quando na verdade, estamos controlando os corpos, principalmente, o de mulheres. É muito comum, por exemplo, ouvir de alguns psicólogos: “encontre o seu eu feminino”, “busque a sua feminilidade”… Corroborando junto da perspectiva de Virginie Despentes, acredito que isso seja imensamente machista. Uma vez que questionamos: que tipo de feminilidade estamos defendendo e falando? Da feminilidade passiva, não agressiva e dócil? Isso é uma questão muito problemática, acredito. E que é acometida diretamente ao corpo de mulheres. Decerto porque carregamos o estigma de loucas, histéricas, surtadas e etc., quando não aceitamos violências que são naturalizadas socialmente. Por isso que a luta antimanicomial também é uma luta feminista. E seguindo a lógica do cuidado em liberdade, devemos combater até os manicômios a céu aberto. Portanto, precisamos construir uma psicologia que tenha nitidamente a compreensão dos determinantes sociais do sofrimento e que não só apoiem a luta dos feminismos, mas a luta antimanicomial, do movimento LGBT+ e etc.

M: As questões do “ser mulher” e de gênero, no entanto, não permitem ignorar a temática das “masculinidades”. Sucintamente, o que são e de que modo esse tema interfere na subjetividade e na saúde mental das pessoas – tanto homens quanto mulheres?

I: Olha, eu não me sinto tão apropriada para falar sobre a construção das masculinidades. É algo que preciso ler mais sobre. No entanto, na pesquisa que realizei no meu trabalho de conclusão da residência com mulheres em um grupo de gestão autônoma da medicação, ouve uma narrativa que me fez pensar na questão das masculinidades, pois neste grupo falaram: “o machismo é tão grande, que o marido toma o psicotrópico da mulher para não ter que ir no psiquiatra”. Isso me fez pensar na importância dos debates feministas atuais sobre a produção das masculinidades no campo da saúde mental, de tal modo que é evidente que o machismo não afeta apenas nós mulheres, mas também os homens que não corroboram para um ideal de masculino hegemônico. Mas, penso ser importante sinalizar, que são sofrimentos que se desdobram diferentemente. 

M: Os processos de cuidados devem levar em consideração as pessoas em sua complexidade, de modo a incluir, não só recortes de gênero, mas também suas histórias de vida, sexualidade, questões de classe etc. Como levar em consideração a experiência do “ser mulher” pode favorecer o cuidado e a saúde? Em que sentido precisamos caminhar para produzir uma psicologia que não ignore as questões do “ser mulher”?

I: Existem pesquisas como as da Valeska Zanello, professora da UNB, que evidenciam a ausência de práticas de cuidado que considerem o lugar das mulheres no campo da saúde mental. Então, acredito que é um lugar que devemos estar construindo, com urgência, buscando compreender os atravessamentos que compõe os corpos das mulheres envolvendo as discussões interseccionais para criar estratégias de cuidado a saúde. Não apenas na clínica, mas, principalmente, no campo das políticas públicas. E a psicologia contra hegemônica precisa seguir lutando para ganhar visibilidade e representatividade nos espaços acadêmicos, construindo conhecimento relacionado a saúde mental de mulheres que não sejam binaristas e cisgênero. Desse modo, estaremos afirmando uma psicologia feminista que não se restringe suas discussões acerca das mulheres brancas, heterossexuais e cis., mas que inclui as mulheres rurais, negras, bi, lésbicas, trans, profissionais do sexo, e etc.


Referências:

Neves, S., & Nogueira, C. (2003). A Psicologia Feminista e a violência contra as mulheres na intimidade: a (re)construção dos espaços terapêuticos. Psicologia & Sociedade, 15(2), 43–64.

 

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