A Criança Em Evidência: Como Se Comunicar Com Elas?

Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce?

(Carlos Drumond de Andrade)

   Na celebração dessa data comemorativa para homenagear as crianças, é importante refletirmos como estamos nos comunicando com elas, como estamos as escutando. Escutar a criança vai além do que ela diz, é se conectar, se interessar pelo que ela está lhe mostrando, pela sua realidade, pela sua vivência, é deixar ela mostrar como é seu mundo.

   A comunicação com as crianças se mostra essencial para um bom relacionamento e, após as maneiras tradicionais de educar as crianças começaram a ser questionadas, a educação dos filhos demonstrou ser um desafio ainda maior. Que pai/mãe nunca se viu diante de uma situação que não sabe o que fazer? A verdade é que o referencial de educação que os pais tem foi a educação que lhes foi oferecida, tendendo s seguir o modelo de acordo em como foi vivenciado esse momento e suas relações com os pais. O exercício de se perceber enquanto pais é constante e importante para a relação com as crianças. Você lembra de como se sentia enquanto criança? E atualmente?

   E o que podemos fazer para aprimorar a escuta das crianças? Identificar qual a visão de criança que você tem é o primeiro passo. Um ser frágil? Que não tem vontade? Que é impulsiva, não tem controle? Já se perguntou o que é ser criança? Esse não é o objetivo do texto, na verdade não existe uma resposta única para isso, não existe um conceito fechado. Mas trazendo um pouco desse universo infantil, me aproprio do poema de Manoel de Barros, conhecido como o poeta das infâncias, que colocou em suas poesias a infância como um lugar de ser e estar.

“Hoje eu estou quando infante. Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar. Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser. Então agora eu estou quando infante.” (Trecho da poesia “Tempo” de Manoel de Barros)

   Então, percebendo qual a sua visão, fica mais fácil se aproximar do universo infantil. Já escutou alguém dizer “Nossa, essa criança faz igual ao pai/mãe”? Então, uma das principais formas que as crianças aprendem é pelo exemplo. É comum darmos lições de moral nas crianças, não que as lições não sejam importantes, mas atos e atitudes sobre gentileza, solidariedade, amor, amizade são transmitidas de modos mais convincentes que lições estereotipadas1. Já pensou quais exemplos estamos dando as crianças?

   Outro ponto importante é que nas crianças principalmente, os sentimentos de medo e sofrimento comumente aparecem disfarçados de agressividade e rebeldia1 e, em relação ao carinho, “quando elas menos merecem é quando mais precisam”. Às vezes é difícil compreender o que a criança está tentando nos dizer quando choram ao se deparar com uma situação nova. Quem nunca se sentiu assustado frente uma situação desconhecida? As crianças também tem esses sentimentos, e acolher com amor, refletindo sobre o que ela está sentindo é um caminho que possibilita abrir portas para uma comunicação mais profunda, pois valida o que está sendo sentido1. Isso ajuda a criança no processo de educação emocional, pois ela vai conseguir compreender melhor o que está sentindo (nem sempre conseguem dar nomes aos sentimentos), além de saber que pode falar disso ao invés de reprimir o que sente por não perceber uma abertura.

   É importante reconhecer os sentimentos e desejos da criança, mas isso não significa que é preciso atender a todos eles, pois as frustrações fazem parte do processo de educação. Entretanto, o reconhecimento desses sentimentos ajuda a suportar as limitações da realidade. Esclarecer os motivos dessas limitações também se torna fundamental no processo de comunicação, mesmo que não seja tão simples dar resposta a todas as perguntas que a criança possa fazer, usar a criatividade para responde-la vai ajudar tanto o adulto como a criança. Na relação com o outro, seja ele criança ou adulto, é elementar dar lugar aos sentimentos, pois assim se constrói uma relação autêntica.

   Para conhecer mais sobre o tema, o livro utilizado como referência traz grandes reflexões, vale a pena acessar.


Referências:

Maldonato, M. T. (2008). Comunicação entre Pais e Filhos. Integrare Editora, São Paulo.

Escrito por

Psicóloga em Maitri Instituto de Psicologia CRP 17/3559 Mestranda pelo PPGPSI-UFRN

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