Normose – A Patologia da Normalidade

“Ser ajustado a uma sociedade profundamente doente não é sinal de saúde”
Jiddu Krishnamurti 

 

    Você já ouviu falar no termo ‘normose’?

   Pode-se definir normose como “um conjunto de hábitos considerados normais pelo consenso social que, na realidade, são patogênicos e nos levam à infelicidade, à doença e à perda de sentido na vida” (CREMA, LELOUP, WEIL, 2003). Esse conceito nasceu de forma sincrônica pelo psicólogo e antropólogo brasileiro Roberto Crema e pelo filósofo, psicólogo e teólogo francês Jean-Yves Leloup, na década de 1980. Eles vinham trabalhando o tema separadamente até que um terceiro psicólogo, o francês Pierre Weil percebeu tal coincidência. Do encontro dos três, nasceu uma parceria e o livro “Normose: A patologia da normalidade”, lançado em 2003.

   Segundo esses autores, a sensação de normose ocorre quando experimentamos um desequilíbrio crônico e predominante no contexto social que estamos inseridos. De forma geral, na nossa sociedade, existe uma crença de que tudo que a maioria das pessoas sentem, pensam ou fazem deve ser considerado normal, crença essa que pode gerar uma “patologização” errônea de quem ousa a fugir dessa norma. Essas normas, que deveriam ter a função de nos garantir harmonia, bem-estar, saúde, qualidade de vida, muitas vezes se mostram como produção de doença. Disfarçadas pelo véu da normalidade, seu caráter patogênico é pouco notado pelas pessoas.

    A normose pode se tornar epidêmica, como aconteceu por exemplo no final do período romano, em relação à perseguição de cristãos, ou no início da Idade Moderna, com o fim da legitimidade da Santa Inquisição, ou ainda no século IXX, com a perda de sustentação moral da escravidão.

   Dessa forma, a normose se diferencia da normalidade dita como saudável, como hábitos de levantar cedo e fazer uma caminhada, ou de uma normalidade neutra, como almoçar ao meio-dia. Distinguem-se as normoses em alguns tipos: alimentares, políticas, ideológicas, tecnológicas, bélicas, religiosas, entre outras. Quantas pessoas aderem a uma ideologia, religião ou partido político porque é o comportamento da maioria ou para serem bem vistas pelos demais?

    Há de perceber que um comportamento “normótico” é inconsciente e automático. Tomar consciência da normose e de suas causas se torna uma verdadeira terapia para o cenário atual da sociedade. Quando aprendemos a escutar nossa própria voz interior, transcendemos a patologia da normalidade em caminho para a plenitude humana. Apesar de ser um esforço individual, os autores Roberto Crema, Pierre Weil e Jean-Yves Leloup sugerem que a cura da normose também pode ser facilitada através da substituição do modelo hegemônico de educação por um um novo modelo educacional, onde a escola seja um lugar onde as crianças descobrem suas verdadeiras vocações, ao invés de tentar padronizar os alunos, castrando suas diversas possibilidades de ser.

    Assista o TED Talk do psicólogo, antropólogo e mestre em ciências humanas Roberto Crema, no qual ele fala um pouco mais sobre normose:

 

    Para um maior aprofundamento no tema, indicamos a bibliografia destacada nas referências.


Referências:

CREMA, Roberto; LELOUP, Jean-Yves; WEIL, Pierre. (2003). Normose – A Patologia da Normalidade. Ed. Vozes.

 

Escrito por

Psicóloga graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Formada em Psicologia Clínica na abordagem Transpessoal pela ANPPT e Psicóloga do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Ponta Negra de Natal-RN.

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