O Compromisso da Psicologia com a População LGBTQI+

   No mês de junho é celebrado o orgulho LGBTQI+ em todo o mundo. Mas por que especificamente junho foi escolhido?

   Em junho de 1969 em Nova York, a população LGBT iniciou uma luta ativa contra as batidas policiais que eram realizadas com violência e opressão todos os dias no bar Stonewall Inn, um espaço entre poucos em que as pessoas LGBT daquela localidade costumavam se reunir, haja vista o lugar de marginalização que lhes era destinado.

   Um ano após o acontecimento, a luta contra a repressão policial ampliou-se se transformou em luta pelos direitos da população LGBT, e assim, surgiram as primeiras paradas LGBT nos EUA, as quais ganharam força e estão presentes no mundo inteiro. 

   Junho é um mês não só de celebração, mas principalmente marcado por muita luta pela igualdade e contra todo tipo de preconceito, ainda tão presente na sociedade e que afeta diretamente essa população de maneira psíquica e física e tantas outras mais, com violências expressas e violências veladas. Não é raro escutar esses relatos na sociedade e na prática psicológica, enquanto espaço de escuta diferenciada, é possível perceber o sofrimento gerado expressado na dor do outro, repercutindo em diferentes áreas da vida do sujeito.

   Assim, a Psicologia avança em direção à refutação de olhares restritivos em relação à população LGBTQI+, combatendo práticas que existiam anteriormente, pois somente em 1990 a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de considerar a homossexualidade como doença mental, refletindo essa postura na emissão de Resoluções destinadas a orientar psicólogas e psicólogos quanto a suas práticas e começar a quitar suas dívidas. Podemos destacar algumas resoluções que foram marcos. De acordo com a resolução CFP nº 1, de 22 de março de 1999, não cabe a profissionais da Psicologia no Brasil o oferecimento de qualquer tipo de terapia de reversão sexual, uma vez que a homossexualidade não é considerada patologia, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Nesse sentido, uma prática que era comum na tentativa de reverter a orientação sexual passou a ser combatida pelo Conselho Federal de Psicologia. Sobre essa resolução, existiu uma tentativa de derrubar essa resolução para que pudesse haver a realização de reorientação sexual. Mas dessa vez a vitória foi da Psicologia, pois em 24 de abril de 2019, o STF concedeu uma liminar mantendo a integridade dessa resolução.

   Outra resolução importante publicada pelo CFP foi no ano de 2018 a Resolução nº 1, de 29 de janeiro de 2018, que estabelece normas de atuação para as psicólogas e os psicólogos em relação às pessoas transexuais e travestis. O documento foi baseado em três pilares: transexualidades e travestilidades não são patologias; a transfobia precisa ser enfrentada; e as identidades de gênero são autodeclaratórias.

   Com essas duas resoluções, destacamos a psicologia enquanto uma profissão de cuidado com o outro, um espaço para que essas dores tomem um lugar, pois em muitos momentos foram um lugar de preconceito e repressão. Em uma sociedade em que o preconceito é presente, estudos apontam o estresse que essas pessoas são submetidas por viverem em ambientes hostis e com a violência presente (APA, 2009). O preconceito é a generalização de grupos e pessoas baseado na hierarquia, em que certas pessoas são superiores e outras inferiores, atribuindo características negativas (Catelan, 2018). Pela presença do preconceito na sociedade, acaba ocorrendo a discriminação.

   As pessoas LGBTQI+ estão inseridas em um contexto de sofrimento onde o papel da psicologia é oferecer um espaço de acolhimento, compreendendo como a violência, preconceito e seu contexto social podem afetar a saúde mental (Catelan, 2018). Além disso, também se configura como um papel da psicologia se engajar na defesa de outras formas possíveis para as pessoas que não se encaixam no padrão de gênero e sexualidade que é imposto pela sociedade, combatendo estereótipos, distorções e inverdades que circulam sobre a população LGBTQI+ (Catelan, 2018). A ciência atualmente não compreende transexualidade, a homossexualidade e outras expressões da sexualidade que não sejam heterossexuais, como doenças nem desvios, mas sim variações da identidade de gênero e da sexualidade (Catelan, 2018). Dessa forma, não há cura para o que não é doença e não se trata o que não é desvio. Quanto a este a tema, a conduta psicológica deve ser baseada na ciência e não em uma opinião pessoal do profissional, mas principalmente não perder de vista que a Psicologia deve ter em seu cerne a proposta de cuidar, escutar e acolher, fazer este que não combina com quaisquer olhares restritivos e patologizantes às pessoas LGBTQI+.

   Em compromisso com o cuidado, a psicologia se desenvolveu e possibilita ajudar as pessoas LGBTQI+ emocionalmente e a lidar com as adversidades presentes e que são enfrentadas. Cuidando de si, estratégias e ferramentas podem ser encontradas. Além disso, é muito importante o apoio de pessoas que possam lhe ajudar. Que a luta e a visibilidade LGBTQI+ celebrada no dia 28 de junho e em todo o mês se fortaleça e avance para que chegue o dia em que ela não seja mais necessária e possamos viver em uma sociedade sem preconceito e discriminação.


Referências:

American Psychological Association. (2009). Report of the Task Force on Gender Identity and Gender Variance. Washington, DC: Author.

Catelan, R. F. (2018). O papel da psicologia no trabalho com a população LGBT. Retrieved June 29, 2019, from http://www.cefipoa.com.br/index.php/br/noticia-interna/o-papel-da-psicologia-no-trabalho-com-a-populacao-lgbt-375

Gomes, A. M., dos Reis, A. F., & Kurashige, K. D. (2013). A VIOLÊNCIA E O PRECONCEITO: as formas da agressão contra a população LGBT em Mato Grosso do Sul. Caderno Espaço Feminino, 26(2).

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