Auto-imagem: Entre as imagens que criamos de nós e a potência do que podemos ser

There is freedom waiting for you,
On the breezes of the sky,
And you ask “What if I fall?”
Oh but my darling,
What if you fly?

Erin Hanson

O termo auto-imagem parece explicativo em si, o vemos e logo pensamos: a imagem que se têm de si. Mas por que, então, falar de auto-imagem? Um primeiro ponto a talvez refletir é que esta não se trata exclusivamente da imagem com que nos vemos e identificamos, mas que consiste na imagem que recursivamente criamos de nós, isto é, que criamos e estamos alimentado a todo tempo.

A atenção aos nossos fluxos de pensamentos e ideias nos levam a identificar algumas das concepções que temos de nós sobre o que e quem somos, estando os nossos pensamentos comumente envolvidos de forma íntima com a nossa auto-imagem, como por exemplo de que “sou uma pessoa gentil e prestativa, mas que não levo desaforo para casa”, e que pode contemplar tanto características quanto papéis que desempenho e com os quais me identifico fortemente.

A auto-imagem representa a visão que temos de nós, quem nunca esperou de si determinados comportamentos? Ou determinados sentimentos e olhares para uma dada situação? “Afinal, eu sou assim”. Todavia, apesar das supostas certezas que a auto-imagem traz, ela não possui substância alguma, já que quando a vamos examinar ela não se mostra, não é um fato, ou seja, por mais que nos identifiquemos com ela, a auto-imagem é incapaz de englobar inteiramente o que e quem se é.

Assim, as auto-imagens fortemente arraigadas podem ser limitadoras da forma como nos colocamos no mundo, quando a levamos muitíssimo ao “pé-da-letra”, assim, fácil e comumente elas podem se perpetuar e dominar nossas vidas, não raro nos aprisionando a determinados funcionamentos e realidades, nos privando de outras formas de ser e estar, mesmo em situações que por vezes nos convidam a agir diferentes nos pegamos na repetição do que é usual. Quem nunca se viu num beco sem saída de sua própria forma de encarar o mundo? Ou se achou velha demais para aprender determinada coisa (corroborando com a imagem igualmente limitada de que pessoas velhas não tem mais nada a aprender)? Quem nunca se achou limitado demais para fazer algo específico?

A força dessas verdades da auto-imagem, todavia, desaparecem tão logo deixamos de alimentá-las. Como, então, fazer isso?

Talvez, a pergunta mais coerente seja: quão abertos estamos para abrir mão das certezas limitantes de nossa auto-imagem? Afinal, mesmo em sua inflexibilidade, intransigência e opacidade, a auto-imagem representa algo que foi por alguma importante razão construído e com o qual estamos usualmente apegados – digo isso pois não se trata de algo a ser cegamente combatido, mas sim amorosamente olhado para que não restrinja quem de fato somos, para que não seja prisão da qual não podemos sair e que nunca conseguimos satisfazer, insaciável que é – até porque ao alimentá-la exclusivamente deixamos de nutrir quem somos.

Como nutrimos quem somos, portanto, diante da ávida natureza da auto-imagem? Desconstruir imagens passa também por nos colocarmos de modo ativo e responsável diante da vida, não mais como fantoche das imagens que temos de nós. Tão logo, não eliminamos todas as dificuldades do viver, mas com abertura e atenção, caem-se mais facilmente as grades do cárcere da auto-imagem, descristaliza-se as imagens criadas de si, movimenta-se, para não acreditar que se é apenas os limites que a si se puseram. Assim, como se pode, abre-se para potência de seu ser, que certamente não está apartado dos contextos em que viveu e vive, mas que ao não se restringir abre espaço para ser mais, e há quem creia que sempre se pode ser mais.

Escrito por

Mestre em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Psicóloga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Membro do Laboratório de Estudos em Tanatologia e Humanização das Práticas de Saúde (LETHS-UFRN), Formação em Psicologia Transpessoal pela Associação Norte Rio-Grandense de Psicologia Transpessoal (ANPPT).

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