Os Medos Envolvidos No Processo de Autossabotagem

 

“Nosso grande medo não é o de que sejamos incapazes. Nosso maior medo é que sejamos poderosos além da medida. É nossa luz, não nossa escuridão, que mais nos amedronta. Nos perguntamos: “quem sou eu para ser brilhante, atraente, talentoso e incrível?”. Na verdade, quem é você para não ser tudo isso? Bancar o pequeno não ajuda o mundo. Não há nada de brilhante em encolher-se para que as outras pessoas não se sintam inseguras em torno de você. E à medida que deixamos nossa própria luz brilhar, inconscientemente damos às outras pessoas permissão para fazer o mesmo.

Marianne Williamson

    No nosso cotidiano, lidamos constantemente com situações que exigem tomada de decisões. Nos deparamos muitas vezes com oportunidades de crescimento, porém acontece de negarmos ou deixarmos passar por algum motivo desconhecido. Quando conscientemente queremos conquistar ou fazer algo, mas em contrapartida nossas ações vão em contramão do que buscamos, estamos nos autossabotando. Esse é um processo inconsciente que pode se apresentar tanto em atitudes como pensamentos que são autodestrutivos e que impedem nossa autorrealização.

    Por se tratar de um processo inconsciente, muitas pessoas não percebem que estão se sabotando e como isso está afetando o alcance dos seus objetivos. A autossabotagem pode se manifestar em vários aspectos da vida: relacionamentos amorosos, trabalho, autoconhecimento, novos projetos, entre outros.

    No entanto, cabe um questionamento: se sabemos que o que queremos é o melhor para nós, por que tememos em agir?

    Jean-Yves Leloup (1996) coloca em sua obra “Caminhos da Realização” alguns medos que são comuns no processo de autossabotagem: medo do sucesso, medo do ostracismo, medo de mudanças e o medo de se conhecer.

Medo do sucesso

      Em 1915, Freud na sua obra “Alguns Tipos de Caráter Encontrados na Prática Psicanalítica” afirmou que “para algumas pessoas, o sucesso equivale a uma morte simbólica do genitor do mesmo sexo”. A teoria psicanalítica afirma que alguns medos inconscientes, como o de ser superior aos pais (seja no nível profissional ou afetivo), estaria causando certa ansiedade e sentimentos de culpa. Jean-Yves Leloup (1996) coloca como “Neurose do Fracasso” essa armadilha do inconsciente: quando estamos prestes a realizar um sonho, inconscientemente nos arranjamos para falharmos.

    Mas por quê sentimos medo de ser superior aos nossos pais? Segundo Jean-Yves Leloup (1996), inconscientemente tememos nos tornar uma ameaça aos nossos genitores e sermos rejeitados. Embora conscientemente essa crença possa parecer irracional, há uma criança dentro de nós (em níveis profundos) que tem medo de não ser amada, de não ser reconhecida.

     O psicólogo Otto Fenichel (1981) também ressalta que está ligado ao medo de vencer o sentimento de indignidade e autodepreciação, que pode ter herança nos julgamentos que nos foram dirigidos ao longo da vida. Quando se repete à uma pessoa que ela não é capaz de conseguir algo, inconscientemente ela internaliza essa crença, podendo se tornar limitante em vários aspectos. Citando Fenichel: “O sucesso pode significar a realização de alguma coisa imerecida, que acentua a inferioridade e a culpa. Um sucesso pode implicar não somente em castigo imediato, mas também em aumento de ambição, levando ao medo de futuros fracassos e de sua punição”.

Medo do ostracismo

    É comum escutarmos que as pessoas têm medo do ostracismo, ou seja, de ser rejeitado/excluído pelo grupo. Em função disso, renunciamos nossa criatividade, originalidade, independência, poder. E assim, caímos no conformismo e na sensação de impotência. Nossa consciência fica limitada a ponto de não perceber nosso verdadeiro potencial criativo e, consequentemente, tentamos resolver nossos problemas pessoais adaptando-se às normas e aos valores de outrem.

Medo de mudanças

     A perda de hábitos antigos, do conhecido, cria em algumas pessoas uma sensação de insegurança que, para alguns, chega a ser insuportável. Se segurar no previsível pode dar uma ilusória sensação de segurança/controle, mesmo que isso signifique um caminho de sofrimento e infelicidade. Segundo Jean-Yves Leloup (1996), muita segurança pode impedir a evolução da pessoa, porém muita liberdade pode causar muita angústia.

Medo de se conhecer

    Para nos conhecermos, irmos no mais profundo do nosso Ser, é preciso sair da zona de conforto. Para Jean-Yves Leloup (1996), quanto mais o conhecimento é impessoal, mais ele dá segurança. E quanto mais o conhecimento é pessoal, na escuta do nosso mundo interior, mais nos tornamos hesitantes, assaltados, às vezes, pelas dúvidas. A experiência do transpessoal, do além do ego, nos permite alcançar níveis até então desconhecidos da consciência, que inicialmente pode ser desconfortável, mas que nos levam à verdade sobre o que temos de próprio. Se conhecer também implica questionar sua auto-imagem, suas crenças, seus atos. Não se conhecer também implica no não fazer, isto é, quando não nos conhecemos, podemos colocar a desculpa de não fazer porque “não sabíamos”.

mapa
Fonte: Google

   Diante do que vimos, é importante salientar que o medo é um importante regulador para nossa sobrevivência, mas ele não pode ser um fator impeditivo que nos paralise no fluxo contínuo da vida. Como nos relembra Carl G. Jung, “qualquer árvore que queira tocar os céus precisa ter raízes tão profundas a ponto de tocar os infernos”. Fazendo essa analogia sendo nós como árvores, para construirmos novos aprendizados e novas experiências de vida, precisamos nos conhecermos a ponto de irmos a lugares que não são prazerosos, pôr em questionamento nossas supostas verdades. Isso nos levará a ter uma nova perspectiva de vida, mais consciente e corajosa.

     Portanto, para pararmos de nos sabotar, é fundamental primeiramente tomar consciência das nossas crenças inconscientes e padrões de comportamento, entender seu funcionamento e o que está por trás; aceitar a si mesmo em sua inteireza, qualidades e defeitos, aspectos luminosos e sombrios; e o principal: agir e tomar responsabilidade pelos atos. Para auxílio nessa jornada de autoconhecimento e novas descobertas, a psicoterapia é um dos meios mais indicados.


Referências:

LELOUP, Jean-Yves (1996). Caminhos da Realização: Dos medos do eu ao mergulho no ser. Editora Vozes.

FENICHEL, Otto (1981). Teoria Psicanalítica das Neuroses. Editora Livraria Atheneu.

Escrito por

Psicóloga graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Formada em Psicologia Clínica na abordagem Transpessoal pela ANPPT e Psicóloga do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Ponta Negra de Natal-RN.

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