Os Chakras e a Psicologia Transpessoal

    A psicologia é uma ciência diversa e possui diferentes abordagens, assim como a psicanálise, humanismo, gestalt-terapia, entre outras. Nosso referencial teórico-prático é a Psicologia Transpessoal, que segundo o psicólogo francês Pierre Weil consiste em:

Um ramo da Psicologia especializada no estudo dos estados de consciência que lida mais especificamente com a “Experiência Cósmica” ou estados ditos “Superiores” ou “Ampliados” da consciência. Estes estados de consciência consistem na entrada numa dimensão fora do espaço-tempo tal como costuma ser percebida pelos nossos cinco sentidos. É uma ampliação da consciência comum com visão direta de uma realidade que se aproxima muito dos conceitos de física moderna (WEIL, 1999, p. 9).   

    Assim, a partir desse olhar abrangente, a transpessoal busca incluir em seu modelo teórico os conhecimentos das escolas psicológicas anteriores, além de realizar um diálogo transdisciplinar com outras áreas do conhecimento, ocidentais e orientais.

    Com as descobertas da física moderna, surgiu-se a necessidade de ter um novo olhar diante do mundo e do ser humano que o paradigma newtoniano-cartesiano, mecânico e linear, não conseguia dar conta. Se faz mister, portanto, uma mudança de perspectiva, surgindo assim o paradigma holístico, que busca construir uma visão integral do ser humano. A psicologia transpessoal, no entanto, busca apresentar o humano dentro de uma perspectiva multidimensional através da qual a espiritualidade possa ser resgatada e devidamente valorizada.

    O pensamento holístico, em psicologia, está presente principalmente nas abordagens humanistas, especialmente na Gestalt, na psicologia analítica desenvolvida por Carl G. Jung e na Psicologia Transpessoal. Stanley Krippner, diretor do Centro de Estudos da Consciência, definiu os quatro princípios básicos do paradigma holístico:

  • A consciência humana ordinária, ou de vigília, compreende apenas uma parte ínfima da atividade total do psiquismo humano;
  • A mente ou a consciência humana estende-se no tempo e no espaço, existindo em uma unidade dinâmica, ou melhor, em uma relação contínua com o mundo que ela observa;
  • O potencial de criatividade e intuição é mais global do que se imagina comumente, abrangendo todos os seres vivos;
  • O processo de evolução para níveis de maior complexificação e transcendência é algo de muito valioso e importante – tendência à auto-atualização, segundo Maslow e Carl Rogers ou processo de individuação, segundo Jung.

  Partindo desses pressupostos, entendemos que existem diversos modelos de crescimento pessoal em direção ao self (si-mesmo), isto é, a unidade pessoal indivisível que está relacionada com o todo. É através da realização do self que o ser humano alcança seu potencial mais pleno. No entanto, nosso objetivo nesse texto é abordar a relação que o autor Pierre Weil fez da psicologia transpessoal com o sistema de chakras, e como, através deste, é possível um caminho de integração do Ser.

    Em sua obra “As Fronteiras da Evolução e da Morte” (1989), Pierre Weil introduziu e entrelaçou os conhecimentos milenares orientais dos chakras aos saberes da psicologia ocidental. O autor, o qual foi responsável por trazer a Psicologia Transpessoal para o Brasil, afirma que o sistema dos chakras é o mais completo sistema explicativo da evolução do homem e dos seus potenciais de transformação energética existente.

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Fonte: Google

    Chakra em sânscrito significa roda (ou campo ou círculo energético). Segundo esse sistema multimilenar, descrito há 5 mil anos em uma coleção de textos da filosofia indiana chamados Upanishads, existem sete principais centros energéticos que se estendem da base da coluna vertebral ao campo acima da fontanela (moleira). A partir que expandimos nossa consciência e fazemos a energia dos chakras circularem, o ego-ismo e ego-centrismo tendem a diminuir, principalmente com a prática do desapego e pela síntese dialética das dualidades próprias de cada chakra. Quanto mais os processos de conscientização (terapias ocidentais e orientais) conseguem dissolver as dualidades ilusórias, tanto mais estas aproximam o homem da sua unidade fundamental.

    A seguir, descreveremos brevemente cada um dos chakras:

1º nível energético: segurança e conservação do indivíduo

A função fundamental do primeiro chakra é a de segurança. Ele se situa no nível do ânus e corresponde à função orgânica de excreção. Seu símbolo é a terra. É o centro do medo incontrolado, do medo de ser atacado. A projeção é o fenômeno psicológico característico deste nível, que surge como um mecanismo de defesa. Como consequência, o mundo é dividido entre bem e mal (tudo que provoca dor é considerado mal e tudo que protege e dar segurança é considerado como bem). É quando o indivíduo se dá conta da relatividade do bem e do mal que essa dualidade pode ser superada e sintetizada.

2º nível energético: sensualidade e conservação de espécie

A função fundamental do segundo chakra é a sexualidade, dessa forma sendo a busca do prazer sexual característica essencial do princípio de conservação da espécie. Este nível corresponde aos órgãos genitais, bexiga, próstata e útero e é simbolizado pela água. Quando o indivíduo está gastando maior parte de sua energia no segundo chakra, ele está se dedicando mais aos prazeres sensuais. As dualidades de masculino/feminino, tensão/descarga sexuais seriam sintetizadas pela aceitação e integração em si-mesmo.

3º nível energético: o poder

Também conhecido como plexo solar, o terceiro chakra situa-se na altura do estômago, acima do umbigo. É simbolizado pelo fogo. Este centro é considerado como o centro do poder. A dualidade neste nível que precisa ser sintetizada é a de dominação-submissão, a qual tem resolução na cooperação, na igualdade no trabalho em equipe, no esforço comum. Segundo Pierre Weil, são três os tipos de medos ligados a esse nível: o medo de não conseguir, quando ainda não se tem a posse/poder; o medo de perder, quando já se conquistou o poder/posse; o medo de não reaver, quando já se perdeu a posse/poder.

4º nível energético: compaixão

Este nível pode ser considerado como um elo intermediário entre os três primeiros níveis e os três últimos níveis superiores. Situado na zona do coração e dos pulmões, este chakra é simbolizado pelo elemento ar. À medida que a pessoa vai se livrando dos apegos referentes aos primeiros chakras, abre espaço para o desenvolvimento de sentimentos altruístas de amor e dedicação ao próximo, específicos deste chakra.

5º nível energético: abertura à inspiração e criatividade

Situado na altura da garganta, o quinto chakra é simbolizado pelo elemento éter. É considerado como o centro de recepção das ideias criativas e da aceitação da inspiração proveniente dos níveis superiores. Aqui se situa a aceitação de viver, do ritmo respiratório e da mensagem que lhe está subjacente. Em relação a isso, a respiração nos dá uma mensagem importante: tudo o que recebemos terá de ser devolvido inevitavelmente, portanto o desapego é necessário. Diante desta dualidade de dar e receber, Pierre Weil coloca que a síntese dela se dá através da  disponibilidade e criatividade. Este chakra também está ligado à emissão da palavra e ao pensamento. É o centro da linguagem criativa, do pensamento filosófico, da poesia e qualquer forma de criação.

6º nível energético: conhecimento, intuição e razão

Este chakra situa-se um pouco acima das sobrancelhas e possui estreita relação com a intuição criativa. Nas sabedorias antigas orientais, é também conhecido como o “terceiro olho”. Está associado às experiências de clarividência, clariaudiência e premonição, assim como também experiências de cura à distância. A dualidade deste chakra se encontra entre a razão e a intuição, sendo importante um intermédio entre essas duas polaridades através da compreensão.

7º nível energético: a consciência cósmica

Este chakra situa-se num campo acima da fontanela (moleira) e está relacionado com a superação da mente e alcance do nível de consciência cósmica, último nível que o ser humano pode chegar em sua evolução. Esse estado de consciência é também conhecido em diferentes culturas como Nirvana, Samadhi, experiência oceânica, experiência unitiva, estados holotrópicos, etc. Essas experiências podem acontecer de forma repentina ou podem ser induzidas. Nesse nível, o ser humano transcende o ego e este passa a ser vivido como o self universal. Stanislav Grof (1985), grande nome da Psicologia Transpessoal, ressalta que estados holotrópicos, espontâneos ou induzidos mobilizam forças curativas intrínsecas ao organismo. Se adequadamente suportadas e apoiadas, podem resultar em cura emocional e psicossomática, transformação positiva da personalidade e evolução da consciência.

    Como acabamos de ver, o sistema dos chakras é um sistema integrado de subsistemas energéticos. É importante ressaltar que cada chakra possui influência sobre o outro, não se tratando de uma decomposição do humano em partes isoladas. Ademais, diante da riqueza inesgotável desse sistema, indicamos para aprofundamento as leituras que estão nas referências, caso seja do interesse do leitor.


Referências:

GROF, S. Beyond the Brain: Birth, Death, and Transcendence in Psychotherapy. Albany, N.Y.: State University New York (SUNY) Press, 1985.

WEIL, P. Lágrimas de Compaixão: e a Revolução Silenciosa Continua. São Paulo: Pensamento, 1999.

WEIL, P. As Fronteiras da Evolução e da Morte. Rio de Janeiro. Vozes, 1989.

https://www.institutoluz.com.br/artigos/o-novo-paradigma-holistico/

Escrito por

Psicóloga graduada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Formada em Psicologia Clínica na abordagem Transpessoal pela ANPPT e Psicóloga do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Ponta Negra de Natal-RN.

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