[RESENHA DE FILME] What Happened Miss Simone? (2016)

 

   Na semana da luta antimanicomial um documentário para pensar saúde mental, ser mulher, arte e mais…

   Indicado ao Oscar de melhor documentário em 2016, a produção de Liz Garbus conta com gravações inéditas da vida de Nina Simone, imagens raras e uma trilha sonora edificada em suas canções mais populares, disponibilizando ao espectador um olhar acerca de quem foi a ímpar e polêmica cantora e ativista. “What Happened Miss Simone” é inquietante e potente.

   Ao fim do documentário é possível que você se depare com a mesma questão que eu: o que aconteceu Nina Simone? E é neste questionamento e reflexão que reside o caráter inquieto e vigoroso desta produção. Não há respostas lineares a esta pergunta nem réplicas que sejam absolutamente acertadas, entretanto, em um esforço de discernimento me lembrei de uma história, uma história infantil, mas nenhum pouco ingênua: A Cidade dos Carregadores de Pedra de Sandra Branco, que narra: durante a vida vamos carregando pedras. Algumas delas adotamos espontaneamente, outras conseguimos deixar; há as que recebemos de bom grado, mas também há as que nos são imperativamente delegadas e delas não conseguimos usualmente nos livrar com facilidade – parece haver uma insistência em impô-las sutil e sorrateiramente a alguns, tendo umas que passam a fazer tão parte de nós que não mais se parece saber existir o eu sem essas pedritas.

   Dentre esses pedregulhos ditados é comum encontrarmos o ser negra/negro, a pobreza e o ser mulher, que não são pedras penosas por si sós, mas se constituem tal qual pesado fardo de acordo com o contexto em que se encontram. Logo, não raro se fazem carga densa e sofrível em uma sociedade ainda marcada por ávido racismo, embora por vezes velado, por segregação demasiada e por sexismo acentuado. Sobre as pedras: em algum momento parece que impuseram que deveríamos carregá-las e equilibrá-las magistralmente como se nem mesmo existissem, havendo pedras inclusive as quais simplesmente ocultamos em nosso olhar e damos por nunca existidas. Apesar das tentativas de invisibilizar essas rochas elas aos portadores dificilmente passam indolor, e no malabarismo da vida, na tentativa de equilibrar trouxas pesadas e insustentáveis, desequilibra-se, cai-se, rompe-se, mas paradoxalmente esse dito desequilíbrio talvez seja um grito, para alguns mudo, mas um grito, um movimento em busca de algum equilíbrio, talvez seja um refúgio a responder a imensa dor que é carregar tantas pedras.

   O que aconteceu Miss Simone? Há um diagnóstico, mas não é dele que quero falar. O que aconteceu Miss Simone? Talvez as pedras foram pesadas demais e sufocantes demais para um espírito livre, para um espírito que aspirava a liberdade e se libertava por vezes por meio de sua produção artística, pela música, faca de dois gumes que a aproximava da Nina que Era, já que a permitia expressar-se, mas que ao ser feita um ofício, uma obrigação, por vezes a sufocou – emancipou-a mas também a acorrentou. Para Nina Simone não houve manicômios concretos e físicos, mas pelos contextos de violência e as violências que talharam o seu corpo negro e de mulher não há dúvidas de que não faltaram prisões na vida de Simone, prisões que acompanharam sua existência desde quando era Eunice Kathleen Waymon, prisões que incontáveis vezes a colocaram em lugar de inferior, já desde pequena por sua cor, pela cor de seus pais, em um contexto de conflito e segregação racial, em um “apartheid” americano onde os negros ainda sofriam incisivamente a herança dos tempos coloniais e de escravidão criando relações insensatamente assimétricas.

   Nina casou-se e acreditou encontrar no seu cônjuge a segurança para seguir, amou intensamente como intensa era, entretanto, esse homem objeto de seu afeto também era o mesmo que a violentava física e sexualmente, que a agredia física, verbal e psicologicamente, seu porto seguro paradoxalmente também era fonte de insegurança – mais uma faca de dois gumes na vida de Nina Simone.

   Não houve manicômios físicos na vida de Miss Simone, se houvesse é possível que ela não tivesse voltado ao sucesso, ou mesmo que nem a tivéssemos conhecido, porém ainda assim uma cobra se instalou em Nina, e foi quando me dei conta de que a metáfora da serpente a que Basaglia¹ faz referência tem seu cerne na opressão, que existe marcadamente nos hospitais psiquiátricos ou houve, mas que também encontramos fora deles e Nina Simone a conheceu, ela resistiu, resistiu, não a objetificação que a abordagem manicomial trás, mas tentou sim resistir às demais opressões da vida, a objetificação do racismo e tantas outras… entretanto, mesmo resistindo elas também a constituíam.

   Não quis falar do diagnóstico de Miss Simone, não por que ele era de todo irrelevante, mas sim porque acredito que ele diz também de sua história de vida, que é anterior a esse e que diz muito mais dela do que a nomenclatura Transtorno Bipolar. O diagnóstico é importante, mas não é o mais importante. Que Nina e tantos outros nos convidem a não colocar diagnósticos na frente de pessoas porque é redutor subordinar uma vida a uma patologia e tomá-la como fim de estrada, quando é potencialmente mais um começo, podemos fechar os olhos à história de vida de Nina Simone em detrimento de um diagnóstico ou de uma patologia? Assim como o documentário não o fez, eu não posso, nós não podemos.

   What Happened Miss Simone? nos convida experimentar mais um pouco dessa potência de não ver o outro por um único viés e de se implicar, se permitir reflexões, desconstruindo algumas cristalizações e mais importante: edificando algo novo em si, um olhar um pouco mais amplo sobre a vida e suas relações, inter-relações, interações e sobretudo afetações.

   Onde fica a psicologia nisso tudo? Qual o papel da psicologia? Não é normatizar os desvios nem as diferentes maneiras de existir, mas sobremaneira pensar novas formas de cuidado, em que o foco seja o sujeito e que esse sujeito jamais seja feito de objeto, e assim também não objetificaremos o outro nem tampouco nos objetificaremos. A psicologia está em tudo isso. Não excluiremos os diagnósticos e a psicofarmacologia, mas combatamos, pois, o caráter objectual ainda presente no que tange a saúde mental, combatamos as catalogações vazias e a busca incessante por normatizar a vida e nos esforcemos no cuidado ao outro, nos esforcemos para nos encontrar com pessoas e não com as suas “caixas” (diagnóstico, profissão, papel…) e isso não serve apenas ao contexto psiquiátrico, serve a vida. Continuemos assim a questionar e problematizar, talvez não encontremos algumas respostas, mas as perguntas tal qual a utopia segundo Eduardo Galeano nos fará caminhar. E que as histórias fantásticas como a de Nina Simone nos inspirem a liberdade, a libertar-mo-nos e a libertar.

¹ Basaglia, psiquiatra italiano, conta uma fábula oriental, a fábula da serpente, e a usa como metáfora para falar do processo de institucionalização – no antigo, mas ainda presente modelo manicomial – trazendo inclusive a discussão sobre a produção da doença mental, tendo em vista que o sistema institucional alimenta a imagem e ideia que cria do louco/da loucura a ponto de também produzi-lo/la, logo a cobra institucional passa a viver no corpo do ser hospitalizado, instala-se em seu corpo e passa a compor sua identidade, passa a fazer parte da própria expressão da doença e da própria expressão do ser, de modo que não se pode descuidadamente matar a serpente, pois isso significa também a morte de seu hospedeiro, posto a enlaçada e intrincada relação estabelecida entre eles, todavia o objetivo de Basaglia não é negar o processo de adoecimento em saúde mental, mas sim problematiza-lo.

Trailer:


Referências:
BASAGLIA, Franco. Escritos Selecionados. Em saúde mental e reforma psiquiátrica. Tradução de Joana Angélica D’Ávila Melo. Rio de Janeiro: Garamond, 2005.

FERNANDA, Brito Pinheiro Cerqueira. Processos de Subjetivação e Saúde Mental de Mulheres Negras: o impacto do racismo. 2013. Dissertação (Monografia) – Faculdade de Psicologia, Centro Universitário de Brasília, Brasília.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s