Bate-Papo Maitri Convida: Psicóloga Flávia Alves (CRP 17/0874)

O Bate-Papo Maitri desse mês traz em questão as campanhas de conscientização sobre o câncer de mama e câncer de próstata, o Outubro Rosa e o Novembro Azul, respectivamente. Para conversar conosco sobre esse tema, convidamos a psicóloga Flávia Alves, (CRP 17/0874), psicóloga graduada na UFRN, especialista em Psicologia Clínica com Foco em Gestal-Terapia pelo IGT – PE, especialista em Intervenção Sistêmica Familiar pela UFRN, psico-oncologista pela Sociedade Brasileira de Psico-Onconologia – SBPO; especialista em Cuidados Paliativos pela Faculdade de Ciências Medicas de Minas Gerais – BH, membro do LETHS – UFRN e Psicóloga da Liga Contra o Câncer.

M: Nos meses de outubro e novembro a visibilidade à temática do câncer amplia-se em razão das campanhas do Outubro Rosa e Novembro Azul, as quais trazem respectivamente atenção ao câncer de mama e ao câncer de próstata, que são de acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA) os tipos de câncer mais incidentes entre mulheres e homens. Como você percebe a importância de campanhas como esta no seu trabalho enquanto psicóloga no contexto oncológico?

F: As campanhas realizadas têm o intuito de chamar a atenção da sociedade de forma geral para uma maior conscientização do surgimento do câncer como um adoecimento crescente e possível de ser diagnosticado em qualquer sujeito, ainda que o mesmo não esteja correlacionado a hereditariedade, uma vez que, vários são os fatores motivadores do surgimento da doença.

No contexto oncológico, tenho percebido usuários de certa forma mais consciente, seja no sentido de uma detecção precoce, ainda que a mesma necessite acontecer com maior eficácia e condições ofertadas pela rede de atenção básica de saúde, seja ainda a partir da importância do próprio paciente, em ser agente de transformação, sendo responsável por propagar a possibilidade real de recuperação e quebrar de idéias preconcebidas socialmente em relação ao câncer como sinônimo de morte. À medida que as campanhas acontecem, pode ser despertado no psicólogo a papel de agente multiplicador no sentido de lançar reflexões não apenas quanto às possibilidades de enfrentar o adoecimento, mas em especial, a importância da qualidade de vida, como fator imprescindível a condição de saúde do sujeito. Para além do contexto oncológico, as campanhas podem também serem alerta para que o psicólogo compreenda os processos que compõem o adoecimento, considerando que em qualquer espaço de atuação, o profissional da psicologia deve trabalhar com a psicoeducação.

M: Entre os profissionais e estudiosos do tema – oncologia – é difundida a importância da prevenção e do diagnóstico precoce no tratamento do câncer, otimizando assim as possibilidades terapêuticas, favorecendo a cura e o cuidado do paciente oncológico. Atualmente, quais são as principais maneiras de prevenção? Que orientações você daria a quem busca ações preventivas? Que caminhos podem facilitar o diagnóstico precoce?

F: Considerando a complexidade com a qual o câncer se desenvolve e acometem o sujeito, acredito ser mais cuidadoso apontar para ações preventivas que estejam voltadas para os exames médicos anuais ou a procurar imediata partir de qualquer identificação de sintomas de causa aparente ou não; atividades que favoreçam a qualidade de vida, dada a singularidade de cada sujeito; a construção de projetos de vida, atitude de autocuidado como bem estar emocional, espiritual e vínculos familiares e sociais saudáveis.

No entanto, acredito ser oportuno, alertar para a importância do fortalecimento de um sistema de saúde que tenha foco na atenção primária, buscando a prevenção do adoecimento, bem como o despertar da consciência dos profissionais de saúde para uma assistência que vise não apenas o cuidado com os sintomas – enfermidades instaladas, mas em especial, com reflexões que alertem o sujeito para ampliar o cuidado com a saúde, favorecendo para não surgimento da doença, mas em acontecendo, para as significativas possibilidades de cuidado.

M: A última estimativa feita pelo INCA estimou que no ano passado (2016) haveria 596 mil novos casos de câncer o que sinaliza para o fato de o câncer ainda ser um processo de adoecimento que afeta muitas pessoas, direta e indiretamente. Em sua vivência como psicóloga em um hospital especializado em oncologia qual costuma ser o impacto deste diagnóstico? E com que recursos a psicologia pode auxiliar?

F: O diagnostico do câncer provoca mudanças subjetivas significativas e evidentemente, cada paciente – família estará iniciando o percurso de tratamento a partir de suas experiências anteriores e de seus recursos de enfrentamento. Muito comum que a díade vivencie esse diagnostico com sentimentos de medo do por vir, angustia frentes as perdas reais e simbólicas, bem como a esperança da recuperação e conseqüentemente, o retorno aos projetos de vida que foram rompidos com a notícia da doença. A atuação do psico-oncologista consiste no acolhimento as dores reveladas do paciente e seu sistema familiar, sendo necessário identificar elementos essenciais ao melhor enfrentamento da díade em questão, ampliando os recursos utilizados, que por vezes, não estão direcionados apenas aos elementos psíquicos, mas que consistem em orientação, cuidados dispensados por toda uma equipe multidisciplinar, considerando a especificidade / demanda de cada paciente/família durante as diversas fases do adoecimento, inclusive a fase de finitude.

M: Mesmo com os avanços na terapêutica nos diversos tratamentos oncológicos, ainda é muito usual no senso comum a associação do câncer com a temática da morte, como você percebe isso na sua prática? Isso reverbera no enfrentamento dos pacientes e da família?

F: É notório que os avanços na terapêutica já apontam experiências positivas dentro do contexto oncológico, no entanto, ainda de forma bem significativa, o estigma de que o câncer estar diretamente associado à morte com dor, abandono e sofrimento que acomete o paciente, ainda se faz presente nos tempos atuais.

Na prática, a pontuação em questão pode ser percebida a partir do diagnóstico acontecendo em uma fase mais avançada da doença, fato que pode ser atribuído a demora de detecção precoce pelos profissionais de saúde nas redes de atenção básica, bem como a própria dificuldade do paciente em buscar orientação médica no início dos sintomas ou ainda, apresentar dificuldades em lidar com as implicações do tratamento, por estar paciente – família, aprisionados em idéias preconcebidas e experiências anteriores relacionadas ao câncer.  Vale ressaltar que para além do significado e forma de enfrentamento do paciente – família, o prognóstico que configura cada tipo de câncer deve ser considerado para compreensão de maneira mais ampliada.

M: O câncer costuma ser uma temática bastante mobilizadora, que elementos de sua formação acadêmica ou de outros contextos te auxiliam na sua atuação como psicóloga no contexto oncológico?

F: No decorrer da minha formação acadêmica, percebia uma maior carência de disciplinas voltadas a psico-oncologia especificamente, fato que motivou a buscar cursos externos a universidade, quando passei a ampliar o meu conhecimento na área em questão e até os dias atuais vivenciar o processo de formação continuada, consolidando o meu fazer através da articulação teoria – prática e seus devidos ajustamentos ao contexto de atuação. No entanto, associado ao arcabouço teórico, alguns elementos apresentam-se enquanto redes de apoio, como a espiritualidade, vínculos familiares – socais, prática do autocuidado e em especial, o processo psicoterapêutico, uma vez que, ao lidar com as fragilidades emocionais do outro, projeções e inquietações internas podem refletir no profissional, interferindo na qualidade do cuidado dispensados a díade paciente – família.

M: Aos que não conhecem a psico-oncologia como você a delimitaria em linhas gerais?

F: Área de interface entre a psicologia e a oncologia, que faz uso do conhecimento educacional, profissional e metodológico, advindos da psicologia da saúde. A atuação acontecerá junto ao paciente – família e equipe, considerando as fases do adoecimento oncológico que vão desde o diagnóstico – tratamento – finitude. Podemos ainda encontrar a psico-oncologia inserida nos processos de pesquisas, buscando a compreensão do paciente – família – equipe de saúde, frente ao contexto da oncologia e suas implicações.

M: Enquanto processo de adoecimento complexo, o câncer costuma mobilizar não apenas o paciente em tratamento, mas também seu núcleo mais próximo, sobretudo a família. Isto aparece na sua prática como? Qual o papel da psico-oncologia no cuidado ao paciente e sua família?

F: Estando o sujeito que adoece inserido em um sistema familiar, vinculados a partir de valores e padrões que se compõe a vivencia dos seus membros, inevitavelmente qualquer mudança alterará a dinâmica do sistema em questão. No cotidiano, é notório a crise que  o adoecimento oncológico provoca na família, seja com o impacto inicial do diagnostico, no qual desencadeia sentimentos ambivalentes de medo e esperanças, seja na reconfiguração da rotina para enfrentar o percurso do tratamento ou ainda na ressignificação de vínculos, frente ao processo de finitude do seu ente querido. Considerando o meu contexto atual de atuação, direcionado aos pacientes que vivenciam o inicio do tratamento, muitas vezes através do processo cirúrgico ou no processo de terminalidade, quando a fase dos cuidados paliativos esta mais acentuada, a família é sem dúvida, desde que também cuidada, fator imprescindível ao enfrentamento do paciente em seu processo de vida – morte.

A atuação do psico-oncologista, consiste no acolhimento da família em suas dores, medos e esperanças, ofertando espaços para expressão dos sentimentos e a partir de uma escuta ativa, buscar a compreensão do significado que o sistema familiar tem frente ao câncer, suas experiências anteriores com a doença, identificando a partir de então, a maneira como os membros estão vivendo e quais recursos de enfrentamento estão sendo utilizados para lidar com o momento. A comunicação estabelecida junto à família é um importante instrumento, considerando se a mesma esta sendo utilizada como possibilidade de silenciar informações e emoções ou se esta favorecendo uma comunicação clara e cuidadosa junto a díade paciente – família. O psico-oncologista torna-se o facilitador do encontro da díade em questão, estando disponível para acolher a família mesmo em suas dificuldades de entrar em contato com as angustias do adoecimento e processo de morte ou encorajando a mesma, para os rituais de despedidas e reorganizações de projetos que deverão acontecer no por vir. O respeito à espiritualidade e ao momento e a forma como qual membro do sistema familiar vive o processo de vida e morte do seu ente querido, deve ser condição essencial ao fazer do psico-oncologista, que também faz parte de uma equipe que se afeta e precisa de cuidado.

M: Para os estudantes e profissionais que querem trabalhar ou iniciar estudos no contexto oncológico, quais as possibilidades de aproximação com a área? Existem cursos de especialização disponíveis?

F: Acredito que o espaço acadêmico já vem trazendo um pouco do contexto da oncologia, alguns cursos da saúde tem em sua grade curricular a disciplina de oncologia e outros, buscam levar a temática através de aulas pontuais, discussões interna em grupos de estudos direcionados, bem como a realização de eventos científicos que trabalhem com a área em questão. A Instituição na qual desenvolvo minhas atividades através do seu Departamento de Ensino, apresenta-se enquanto Instituição formadora, ofertando residência em diversas áreas da oncologia, cursos aos profissionais de saúde em suas áreas especificas com foco em oncologia, alguns em nível de especialização, implantada para o próximo ano, alm de ser campo de estagio para as Universidades do nosso Estado. Com a ampliação do ensino e suas maneiras de propagar conhecimento, alguns cursos oferecidos por Intuições Oncológicas fora do Estado, também disponibilizam residência e curso de especializações, nas modalidades presencial e a distância.

 

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