Bate-papo Maitri convida: Psicólogo Danilo Delgado (CRP 17/2298)

SETEMBRO AMARELO

O Bate-Papo Maitri desse mês traz em questão a campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio, o Setembro Amarelo. Essa campanha acontece no mês de setembro, desde 2014, por meio de identificação de locais públicos e particulares com a cor amarela e ampla divulgação de informações. Para conversar conosco sobre esse tema, convidamos o psicólogo Danilo Delgado, (CRP -17/2298), graduado pela Universidade Potiguar, Membro da Associação Norte Riograndense de Psicologia e Psicoterapia Transpessoal, tem experiência em supervisão e tutoria em práticas de Psicologia Social, Educacional e Clínica; é palestrante sobre o tema da prevenção do suicídio, além de assuntos como: saúde emocional, autoimagem e espiritualidade.

M: Apesar do suicídio ser uma temática complexa, quais os fatores que geralmente levam as pessoas pensar em suicídio e que elementos geralmente estão relacionados às ideações suicidas?

D: De fato a temática é de importante complexidade, e por isso é difícil delimitar fronteiras entre o que pode ou não levar alguém ao ato ou ideação suicida. Porém, nos valendo das experiências pessoais e dos dados estatísticos, podemos observar que neste momento histórico, o isolamento social e a desestruturação dos vínculos pessoais são grandes potencializadores para o quadro do suicídio. Isso, claro, atrelado a outros fatores, como adoecimento mental, adversidades na infância e adolescência, fatores sociais, histórico familiar, entre outros.

M: Geralmente atribuímos o suicídio e as ideações suicidas a fatores internos e unicamente relacionados a questões subjetivas de nível pessoal. Entretanto, é possível observamos que fatores contextuais e de ordem social podem influenciar substancialmente na vivência das pessoas e gerar também sofrimento, como você percebe isso na sua prática como psicólogo?

D: Ao escutar alguém com um sofrimento psíquico, capaz de levá-la à ideação suicida, não é difícil notar a relevância dos contextos sociais para o crescimento ou permanência do seu quadro. Somos, acima de tudo, seres sociais. A maneira como somos vistos, aceitos e integrados, ou não, em nossos meios de interação social, são fundamentais para nossa saúde emocional. Por isso, não é raro nos depararmos com frases como: “estou sempre com pessoas à minha volta, mas sou tomada(o) por um profundo sentimento de solidão”. Discursos assim reforçam nosso olhar para o peso das interações sociais na produção de saúde e prevenção do suicídio.

M: Costumamos acompanhar notícias de jovens que se suicidam, mas pouco se fala sobre o suicídio em outras idades. É possível que a ideação ou o suicídio propriamente dito aconteçam em outros momentos da vida?

D: Sim, há casos de suicídio desde a infância até a terceira idade. Sendo inclusive alto o número de suicídio entre idosos. Acredito que exista, na atualidade, um olhar mais voltado aos jovens por serem a maioria nas estatísticas, e também por estarem mais ativos nas redes sócias, onde a divulgação e exposição destes atos e ideações suicidas acabam se popularizando com maior rapidez e alcance.

M: Tendo em vista a complexidade do tema, quais sinais são importantes estar atento e que podem auxiliar no cuidado?

D: Os sinais devem ser observados sem preconceito. Esta é para mim uma das principais orientações. Pois é comum encontrar pessoas que negligenciam os sinais sutis ou explícitos que a pessoa em sofrimento pode manifestar. Então, ao perceber que alguém passou por uma perda repentina na vida, que ela demonstra isolamento e desesperança com a vida e o futuro, que ela fala frases como “estou cansado(a) de tudo”, “queria dormir e não acordar mais”, “nada que eu faço tem sentido”, etc., é preciso prestar o cuidado da escuta e da aceitação, dando a esta pessoa o espaço que ela precisa para falar sobre e sentir sua dor. A negação ou proibição do sentir podem contribuir fortemente para a intensificação do quadro.

M: O suicídio é um tópico que esteve em alta esse ano e que consequentemente tem sido bastante difundido nas redes sociais e outras mídias, despertando a atenção e interesse de várias pessoas. Que orientações são importantes serem dadas às pessoas que querem oferecer cuidado a quem possivelmente está vivenciando a ideação suicida?

D: É de grande importância vencer os próprios medos e preconceitos frente ao tema. Cuidar de alguém que manifesta a ideação suicida é estar ciente de que precisará enfrentar um desafio que pode parecer a contramão da lógica científica. Uma vez que toda a ciência e saber médico estão sempre na busca de meios para aumentar nosso tempo e qualidade de vida, estar diante de alguém que deseja reduzir, propositalmente, este tempo, pode me colocar diante de um dilema pessoal e social. Então, abrir mão destas compreensões restritas e das ideologias pragmáticas podem contribuir fortemente para a construção de um espaço de cuidado e proteção para a pessoa em situação de sofrimento frente ao suicídio.

M: Em março deste ano, com o lançamento da série “13 reasons why” pelo Netflix, foi levantada a polêmica sobre como a mídia deve abordar a temática do suicídio.  De que forma esse assunto deve ser levado à discussão? Que cuidados são importantes à discussão do tema?

D: Por muito tempo se acreditou no mito de que a mídia não poderia falar sobre suicídio. A campanha do Setembro Amarelo vem rompendo com esta ideia, mas ao mesmo tempo, alertando para a forma como a mídia deve tratar o assunto. Trazer o tema do suicídio à tona nos grandes veículos de comunicação, como a televisão, requer o cuidado para não tratar o comportamento suicida como algo romantizado, justificado ou coerente, bem como o cuidado para não expor formas de cometer suicídio. Infelizmente, estas questões foram abordadas de maneira muito gráfica na série da NETFLIX, o que acaba reduzindo o mérito da mesma, ao trazer o tema para o debate, principalmente entre os jovens. Então, o ideal é que a mídia se proponha a trabalhar a temática de forma reflexiva, promovendo momentos de debates preventivos.

M: Sabendo dos diversos elementos que transpassam esse fenômeno, que mensagem você acredita ser relevante difundir para as pessoas que estão lendo esta entrevista?

D: Gostaria de deixar, enquanto mensagem, que o suicídio é uma questão de saúde pública, ou seja, todos nós temos responsabilidades diante dele. Precisamos deixar para trás as visões primitivas a cerca desta problemática. Suicídio não é questão de um pecado individual, como a Igreja determinou no Século V; o suicídio não é uma questão de crime individual, como a Coroa determinou na Idade Média; suicídio não é condição exclusiva da psicopatologia, como o poder médico definiu na época de sua ascensão. Suicídio é saúde pública, então todos nós temos participação neste mundo de pecados, crimes e patologias sociais, ainda que, no momento derradeiro, o ato seja individual.

Se cada um de nós cuidarmos de alguém, no fim estaremos todos cuidados.

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