Bate-Papo Maitri convida: Flávio Fernandes

     A edição de junho do Bate-Papo Maitri traz a discussão da Síndrome de Burnout e, para isso, o Maitri Instituto de Psicologia convidou o Psicólogo e Professor Doutor Flávio Fernandes Fontes, que teve sua tese de doutorado em psicologia sobre esse tema.

M: Em que consiste a Síndrome de Burnout? Ela sempre foi reconhecida como Síndrome?

F: A síndrome de burnout é um tipo de sofrimento psicológico oriundo da relação da pessoa com o trabalho, caracterizado principalmente por um sentimento de exaustão crônico. O assunto é trazido à tona pela primeira vez na década de 1970, pelo psicanalista Herbert J. Freudenberger, e desde então vem sendo amplamente debatido por pesquisadores de diferentes países. No Brasil o Ministério da Saúde publicou em 1999 a portaria nº1.339, que estabelece uma lista de doenças relacionadas ao trabalho. A síndrome de burnout aparece nesse documento, reconhecida como um dos transtornos mentais e do comportamento ligados ao contexto laboral. É importante que nos perguntemos por que o assunto aparece nesse momento histórico e não em outro. Um conjunto complexo de transformações sociais, econômicas, tecnológicas e de filosofia gerencial concorre para mudar o mundo do trabalho e a relação que temos com ele. Dentre essas modificações podemos citar a diminuição relativa da força de trabalho empregada na indústria e o seu aumento no setor de serviços, bem como a administração cada vez mais baseada em avaliações quantitativas de desempenho, que pressiona sempre por mais resultados e pode colocar o trabalhador para correr em uma esteira perseguindo o infinito: afinal as metas alcançadas hoje precisarão sempre ser ultrapassadas amanhã. Os avanços na tecnologia da informação, com a expansão do acesso à internet e a presença massiva dos smartphones nas nossas vidas parece ter contribuído ainda mais para o sentimento de aceleração do tempo, excesso de informação e dissipação das fronteiras entre a vida no trabalho e a vida fora do trabalho. Por tudo isso, penso que o burnout não pode ser visto meramente como um problema individual – concordo com o filósofo francês Pascal Chabot, quando este afirma que o burnout é o espelho da sociedade que o torna possível. Nesse sentido o burnout pode ser visto como um sintoma-denúncia de uma sociedade doente.

M: Quais os principais sinais/sintomas que podem indicar a presença da Síndrome?

F: Em primeiro lugar o sentimento crônico de exaustão: a pessoa pode se sentir como uma bateria vazia que não consegue mais ser recarregada. Freudenberger descreve que este é o tipo de exaustão mental e emocional que pode impedir a pessoa de dormir – não se trata de um cansaço físico, e, por isso mesmo, a prática de exercício físico poderia inclusive ajudar a descansar e recuperar a energia. O lugar do trabalho na vida se torna desproporcionalmente grande, empobrecendo e afetando outras áreas da vida: sobra muito pouco para família, amigos, atividades de lazer, etc. No entanto, a grande quantidade de tempo dedicada ao trabalho não se traduz por resultados, a pessoa funciona como os pneus de um carro atolado que giram freneticamente sem sair do lugar – o grande dispêndio de energia não se traduz em eficácia na atividade de trabalho. Esse é um processo que muitas vezes se instala de maneira lenta e progressiva e não de uma vez. Por isso mesmo as pessoas afetadas têm dificuldade de reconhecer o problema, muitas vezes só percebendo que foram acometidas quando se encontram em estágios avançados do transtorno, quando cometem erros graves, sofrem acidentes, ou simplesmente entram em pane.

M: Quais profissionais podem auxiliar no diagnóstico e tratamento da Síndrome de Burnout?

F: Minha impressão é a de que ainda estamos bastante despreparados para lidar com o problema, enquanto sociedade, de uma forma geral, e mesmo enquanto profissionais da saúde mental. De uma forma mais ampla, ainda existe bastante preconceito contra o sofrimento psicológico, que é visto como menos importante do que o sofrimento que possui reconhecidas causas orgânicas. O sofrimento psicológico chega a ser abertamente desdenhado como “frescura”, “besteira” e “coisa da sua cabeça”, implicando que ele seria puramente inexistente. Um efeito perverso desse preconceito é que as próprias pessoas que sofrem do problema podem se sentir impelidas a escondê-lo, com medo de serem julgadas e ridicularizadas.

Por outro lado, psicólogos e psiquiatras, teoricamente os profissionais melhor habilitados para realizar o diagnóstico e tratamento da síndrome, têm muitas vezes contribuído para uma compreensão limitada do problema, centrada no indivíduo e medicalizante. Contrariando as muitas pesquisas que apontam para a natureza principalmente psicossocial do problema, e não individual, essas profissões têm frequentemente circunscrito suas ações à psicoterapia individual (psicologia) e à administração de medicamentos (psiquiatria), obscurecendo assim o principal: o ambiente de trabalho e a relação da pessoa com sua atividade de trabalho.

Por isso penso que é necessário melhorar a qualidade da formação e do treinamento dos profissionais, bem como informar e discutir sobre o assunto de uma maneira mais ampla com a sociedade, para que possamos encarar esse problema em toda sua complexidade. Um passo importante nessa direção foi dado no campo das políticas públicas, com a criação da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), que tem por objetivo justamente promover ações nesse âmbito. Hoje existem 3 CERESTs (Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador) no Rio Grande do Norte: um em Natal, um em Mossoró e outro em Caicó. Dados recolhidos por esse sistema (e que podem ser consultados nesse link http://adcon.rn.gov.br/ACERVO/cerest/doc/DOC000000000043401.PDF) mostram o tamanho do desconhecimento do problema do burnout e dos transtornos mentais associados ao trabalho: de 2006 à 2010 foram registrados 1.774 acidentes com materiais biológicos, 1.320 acidentes graves no trabalho, mas apenas 41 ocorrências de transtorno mental relacionado ao trabalho! Me parece evidente que um número tão baixo escancara o quanto esse tipo de transtorno é subnotificado.

M: Na sua opinião enquanto psicólogo, qual a importância do tratamento psicoterápico?

F: A psicoterapia muda vidas. Em um mundo digital, em que a expectativa é de resultados rápidos e de eficácia mensurável, a psicoterapia funciona de modo analógico, dentro de um contexto relacional, em um tempo todo próprio. Portanto, penso que a psicoterapia vai na contramão do movimento de aceleração que vivemos hoje, e é importante que o faça, pois esta aceleração é muitas vezes a prisão que mantém o sujeito na superficialidade e na incapacidade de refletir de maneira mais aprofundada e significativa sobre a própria vida. Me assusta a vontade que algumas pessoas têm de serem medicadas – qualquer pílula é melhor do que ter que olhar para si e se perguntar sobre os próprios padrões de pensamento, sentimento e escolhas de vida. Talvez por isso a psicoterapia assuste tanto – nela o sujeito pressente que não vai mais poder se esconder detrás da fachada que exibe para os outros e das histórias que conta para se auto-enganar, e que terá um encontro marcado com a busca da própria verdade – o que pode ser doloroso e aterrorizante.

No caso do burnout, a síndrome está associada a demandas excessivas, que podem ser impostas do exterior (como normas, metas ou sobrecarga de trabalho provenientes da organização) ou serem autoimpostas, de forma consciente ou inconsciente, pela própria pessoa. O papel, a intensidade e a interação desses fatores é difícil de equacionar a priori. De toda forma, existem aspectos psicológicos e de personalidade que podem facilitar ou concorrer para que uma pessoa desenvolva a síndrome, como o idealismo e o perfeccionismo, que podem se transformar em armadilhas que impedem a conclusão de um determinado trabalho, prolongando-o indefinidamente. Assim, a psicoterapia pode sim contribuir para o tratamento do burnout. No entanto, ela não pode ser vista como o único ou mesmo o principal tratamento. Como Freudenberger colocou de maneira bastante expressiva: se não tornarmos nossas instituições doentes mais saudáveis não adianta aumentar o número de psicoterapeutas, eles nunca serão suficientes, será como colocar um band-aid quando se necessita de uma cirurgia.

M: Como a psicologia vem se atualizando, tendo como objetivo, oferecer um acompanhamento mais especializado de pacientes/clientes que tenham tal síndrome?

F: Nas últimas décadas a psicologia do trabalho tem se modificado e expandido enormemente, com contribuições que vão muito além da clássica psicologia industrial e organizacional. Particularmente na França todo um campo de estudos bastante inovador surgiu, denominado de Clínicas do Trabalho, e que é constituído por diferentes abordagens: a Ergologia de Yves Schwartz, a Psicodinâmica de Christophe Dejours, a Clínica da Atividade de Yves Clot e a Psicossociologia do Trabalho de Dominique Lhuilier. Penso que algumas tendências em comum podem se destacar dessas contribuições, como a valorização do ponto de vista e do protagonismo dos trabalhadores na definição do que é importante observar e mudar no contexto de trabalho, bem como o abandono de uma abordagem individualista dos problemas. As intervenções passam necessariamente pela formação de grupos e pelo trabalho coletivo para atingir a transformação do trabalho efetivamente realizado. A partir desse ponto de vista o burnout não deve ser abordado com o foco no indivíduo, pelo contrário, ele pode ser visto como um convite para a investigação das condições de trabalho, modo de organização das tarefas e elementos da estrutura organizacional que contribuem para sua instalação. É bem provável que outros trabalhadores na mesma função, setor ou organização também estejam sofrendo, embora nem todos tenham chegado ao ponto do burnout.

M: De que forma você acredita que os ambientes de trabalho/gestores podem vir a contribuir para uma diminuição dos casos?

F: Essa é uma pergunta difícil, porque os gestores por sua vez também estão submetidos às mesmas pressões e busca por resultados que adoecem os trabalhadores sob sua responsabilidade. De onde parte essa ordem para correr, não em um ritmo adequado e humano, mas no ritmo máximo das máquinas, até sofrer o colapso e a doença? O que mais chama a atenção é que o compasso alucinante, a sobrecarga, as metas impossíveis e a organização patogênica do trabalho sejam vistas por tantos gestores como algo “natural” e que muitos afirmem não ter escolha diante do mal que infligem a si mesmos e aos outros. Talvez o primeiro passo para a mudança seja reconhecer que há um elemento de escolha nesse mal que vivenciamos. Ler sobre o assunto, observar a organização do trabalho e romper o silêncio em torno de temas tabus são passos importantes para tornar o trabalho discutível e o ambiente respirável. No entanto, o principal é que não se caia na tentação de ações de faz de conta, que se vangloriam de tratar o assunto, mas, na verdade, evitam qualquer discussão sobre os pontos realmente importantes vivenciados pelos envolvidos no dia a dia da execução do trabalho. A melhor prevenção contra o burnout é a discussão coletiva sustentada (e não pontual) dos problemas reais enfrentados no contexto de trabalho.


Flávio Fernandes Fontes, psicólogo formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, defendeu em 2016 uma tese de doutorado em Psicologia sobre a síndrome de burnout. Para acessar as publicações do autor: http://orcid.org/0000-0003-2036-8147 

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