Falar de mulheres para poder falar de mães

            No Brasil, podemos perceber que muitas mulheres têm assumido cada vez mais papéis que acarretam em novos horizontes, mas também em novos desafios. Atualmente, ser mãe é um papel vivenciado, ou não, entre tantas outras possibilidades na vida das mulheres. Por outro lado, a figura da mulher trabalhadora, estudante, entre outras, ou a pessoa mulher por si só, parece, na nossa sociedade, ser menos valorizada do que o papel da mulher como mãe.1,2

        Nas famílias brasileiras, algumas atribuições tipicamente conferidas às mulheres são o cuidado e a transmissão de valores às novas gerações. Na família se dá, em grande parte, a construção da identidade do ser mulher, e essas mesmas costumam ter participação ativa na vida familiar ao longo do seu ciclo vital, desde a infância até a assunção de novos papéis, como o ser mãe e avó.3 Nesse imaginário de que a mulher se realiza ao ser mãe, e que a partir daí a maternidade é o seu dever maior, surgem julgamentos do que seria uma boa mãe, a partir da quantidade de dedicação e sacrifícios que essa mulher faz para tanto1

           Nessa cobrança sem fim, é muito comum que a mulher seja a penalizada: se ela faz o que é possível, mas não atende a todas as regras que aparecem pela frente, se sente insegura, frustrada, culpada e muitas vezes infeliz. Afinal, não há quem consiga seguir todas as normas, e muitas vezes tentando segui-las a maternidade deixa de ser uma experiência singular, construída por que mais importa: a mãe e seus filhos.4

         Muito deste problema vem das dificuldades que nossa sociedade ainda tem em reconhecer que existem maneiras diferentes de ser mulher e, consequentemente, de ser mãe. A mãe idealizada, que vive apenas para a maternidade de forma impecável, é um mito que na maioria das vezes (ou sempre) é inatingível. Esse mito cansa e adoece, na medida em que as mulheres são privadas de outras identidades e papeis, e até da sua própria forma de ser mãe.4

         Em meio a tanta fala que normatiza essa vivência, é importante acolher as mulheres como mães, mas também como elas mesmas, pessoas únicas e que constroem sua maternidade também de forma única. Afinal, formar uma nova vida não deveria significar, para essas mulheres, encerrar a própria vida como conhecida anteriormente, mas sim construir uma nova identidade e crescer junto. 5, 6

            A mulher e mãe, figura simbólica de amor e cuidado, também carece de amor – empático, compreensivo, acolhedor e colaborador. Assim, desejamos que as mães, celebradas nesse dia 14, tenham cada dia mais compreensão e menos cobrança, cada vez mais possibilidades e também escolhas, e que as mulheres possam se realizar sendo quem são, para além de modelos idealizados.

Referências bibliográficas

1: Correia, Maria de Jesus. (1998). Sobre a maternidade. Análise Psicológica, 16(3), 365-371. Recuperado em 12 de maio de 2017, de http://www.scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0870-82311998000300002&lng=pt&tlng=pt.

2: Soares, Juliana dos Santos, & Carvalho, Alysson Massote. (2003). Mulher e mãe, “novos papéis”, velhas exigências: experiência de psicoterapia breve grupal. Psicologia em Estudo, 8(spe), 39-44. https://dx.doi.org/10.1590/S1413-73722003000300006

3: Brasil, T. L. (2015). Avós de uma comunidade de baixa renda: Percepções e vivências sobre a criação dos netos. (Dissertação de Mestrado). Departamento de Educação, Universidade Federal de Pernambuco, Recife.

4: Azevedo, Kátia Rosa, & Arrais, Alessandra da Rocha. (2006). O mito da mãe exclusiva e seu impacto na depressão pós-parto. Psicologia: Reflexão e Crítica19(2), 269-276. https://dx.doi.org/10.1590/S0102-79722006000200013

5: Barros, Juliana Nunes de & Rocha, Margarete Maria da Silva (2014). Mulher, Mãe e Profissional: uma breve discussão sobre o reflexo dessas escolhas no modo de ser mulher. UNILESTE. Centro Universitário do Leste de Minas Gerais.

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