Bate-papo Maitri convida: Samantha Maranhão

   Abril é o Mês de Conscientização do TEA (Transtorno do Espectro Autista). Pensando nisso, o Maitri Instituto de Psicologia convidou a Psicóloga e doutoranda Samantha Maranhão para conversar conosco sobre o tema na estréia do Bate-papo Maitri.

  O Bate-papo será um quadro mensal, lançado toda segunda semana do mês e abordará os mais variados temas, sempre contando com a participação de convidados que possam contribuir da melhor foma para a construção do conteúdo.  Esperamos que gostem do quadro e agradecemos abertamente à Psicóloga e doutoranda Samantha Maranhão pela participação!

            Maitri: Quais avanços a psicologia teve em relação ao acompanhamento/intervenção com crianças autistas nos últimos anos?

Samantha Maranhão: A Psicologia teve diversos avanços em relação ao acompanhamento/intervenção com crianças diagnosticadas com Transtornos do Espectro Autista (TEA). O primeiro deles é a proposição de um diagnóstico-padrão consistente que permite subsidiar tratamentos robustos. Na atualidade há diversos protocolos padronizados e validados que auxiliam o diagnóstico clínico e permitem robustecer as necessidades prioritárias para a intervenção. Outro avanço que merece destaque é o maior conhecimento sobre os marcos desenvolvimentais importantes para comunicação e interação social na infância. Tal fato favorece a reflexão clínica sobre os limites e possibilidades da identificação de sinais de risco para o TEA nos primeiros anos de vida da criança. Hoje, sabe-se que o início da intervenção aos primeiros sinais de risco para o desenvolvimento infantil otimiza a evolução clínica e o desenvolvimento das crianças.

Maitri: Existe diferença entre uma intervenção neuropsicológica e uma psicoterapia? Qual seria?

Samantha Maranhão: Embora haja registros do estudo da Neuropsicologia que remontam ao início do século XX, no Brasil, esta área só foi regulamentada como especialização do psicólogo no ano de 2004, através da resolução 02/2004 do Conselho Federal de Psicologia. Este fato evidencia o quanto este campo de conhecimento é recente no país e exige esforços em torno do seu desenvolvimento.  A neuropsicologia se apresenta como disciplina de caráter interdisciplinar inserida no campo das Ciências Cognitivas, com três objetivos centrais que se inter-relacionam, quais sejam: a) a pesquisa, sobre as relações entre a organização e funcionamento do sistema nervoso e os processos psicológicos; b) o desenvolvimento e a aplicação de procedimentos neuropsicológicos de diagnóstico e; c) a intervenção neuropsicológica, com o intuito de desenvolver e aplicar procedimentos em casos de lesões, disfunções cerebrais e/ou transtornos no neurodesenvolvimento. Com base no uso de testes psicológicos e neuropsicológicos, a avaliação neuropsicológica busca identificar pontos fortes e deficitários do funcionamento neuropsicológico do indivíduo, oferecendo subsídios para a estruturação de programas interdisciplinares de reabilitação e habilitação aptos a estimular o desenvolvimento das potencialidades individuais. A principal diferença entre o tratamento oferecido pela neuropsicologia e a psicoterapia consiste no foco (prioridade) da intervenção. Ambas as áreas de atuação contribuem para otimizar o desenvolvimento infantil e proporcionam orientações/acolhimento familiar. No entanto, enquanto a neuropsicologia prioriza a avaliação e intervenção cognitiva e comportamental, a psicoterapia tem como prioridade a estruturação subjetiva, oferecendo apoio emocional a criança e seus familiares.

Maitri: Qual sua opinião a respeito da nova definição de autismo no DSM-V? Que implicações positivas e negativas você acredita que teve?

Samantha Maranhão:  Não há um consenso sobre as mudanças do DSM-IV-TR para o DSM-5 em relação ao diagnóstico de Autismo. A maioria dos profissionais insatisfeitos com a mudança compõe a área da saúde e da educação. Eles argumentam o impacto da alteração sobre a percepção do Transtorno Autista e Asperger. Para eles, são conceitos diagnósticos diferentes sob os quais subjaz características clínicas dissonantes e, por conseguinte, necessidades interventivas diferenciadas. Ademais, eles defendem que o termo Autismo tem um impacto maior sobre o indivíduo e a família do que o termo Asperger. Comumente há pior estigma social para com aqueles denominados autistas.   Em contrapartida, os profissionais defensores da mudança argumentam que o conceito de Transtorno do Espectro Autista torna-se condição sine qua non para eliminar percepções tendenciosas entre rótulos de autistas e Asperges. Ademais, eles defendem que a nova proposição diagnóstica introduz descrições clínicas detalhadas, passíveis de aferir níveis de gravidade dentro do espectro. O DSM-5 substitui quatro categorias clínicas do DSM-IV-TR, portanto, elimina múltiplas condições clínicas, em detrimento da concepção de espectro e, acredito, facilita o diagnóstico clínico precoce. De forma geral, o percurso histórico do conceito diagnóstico do Autismo parece emergir desconcertos e fascinação em torno do termo variabilidade. Há variabilidade nas taxas de prevalência, variabilidade entre os diagnósticos médicos e intervenções educacionais; variabilidade em pesquisas que buscam entender a sensibilidade e especificidade das edições classificatórias imbricadas com o diagnóstico clínico do Autismo. É factível perceber que o percurso histórico está imbricado com um universo imbuído de fascinantes peculiaridades. Para além de esforços taxonômicos, o Autismo e seu percurso histórico refletem a intrigante complexidade e sofisticação de um ser humano impregnado com um transtorno do desenvolvimento.

Maitri: Como você acredita que deve ser o tratamento das crianças com autismo na escola?

Samantha Maranhão:  Para inclusão escolar de criança com autismo é preciso promover a inclusão das pessoas com deficiência de uma forma geral, a partir da difusão de informação, conscientizando todos os envolvidos no ambiente escolar (famílias, crianças, funcionários). As escolas, muitas vezes, sentem falta de soluções inovadoras para o dia a dia do professor na sala de aula. A priori, penso que o professor precisa conhecer como é quadro clínico do espectro autista e entender como ele repercute no comportamento da criança e na aprendizagem escolar. Tal conhecimento, aliado à experiência escolar do educador, vai proporcionar a criação de propostas pedagógicas adequas às necessidades da criança autista.

Maitri: O que ainda precisa ser conscientizado pela sociedade a respeito do autismo?

Samantha Maranhão:  Como um jovem autista disse certa vez: “nem todo ser humano é autista, mas todo autista é um ser humano” (sic). Há uma forte campanha mundial para a conscientização do Autismo. O dia 2 de abril, decretado pela ONU (Organização das Nações Unidas), já está consolidado como Dia Mundial da Conscientização do Autismo, mas ainda é preciso uma maior inclusão social. Temos que trazer o assunto à tona, além de lembrar a sociedade que há adultos autistas. No mais, as famílias e pessoas com Autismo lutam diariamente pela garantia dos seus direitos. A Lei Berenice Piana, 12.764/2012, que instituiu a política nacional de proteção dos direitos das pessoas com o TEA, precisa ser amplamente difundida e aplicada.

Maitri: Por fim, para quem tem interesse em se aprofundar nessa temática, que literatura você indicaria?

Samantha Maranhão:  O Ministério da Saúde oferece subsídios para estruturação e execução de programas interdisciplinares de habilitação e reabilitação em diversos quadros clínicos. Sugiro a leitura das Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com Transtornos do Espectro Autismo (TEA) e do Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência (Viver sem Limites). A proposta do Viver sem Limite é articular a implementação de políticas governamentais de acesso à educação, inclusão social, atenção à saúde e acessibilidade de diversos quadros clínicos, dentre eles, o TEA.

*Samantha Maranhão é psicóloga formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2011). Mestre em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (2014) e atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação citado. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em avaliação e intervenção neuropsicológica infanto-juvenil, especialmente com o público inserido no espectro autista.

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